De 17 de Maio de 2022

Na minha casa não tinha tesouras. De nenhum tamanho ou tipo. Toda vez que eu queria fazer um trabalho da escola, cortar uma etiqueta, nada feito. Nunca encontrava uma disponível.

Na minha casa todo domingo tinha almoço com meus avós, sentados na mesa 13:30. Minha mãe sempre atrasava para chegar no carro, meu pai ficava resmungando e nós mofando no carro.

Meu pai acordava 4:30 da manhã todo dia para tirar a manteiga da geladeira. Café da manhã era a refeição da família junta, antes do dia começar. A manteiga ficava perfeita, mas eu nunca entendi esse processo. Ele tomava banho frio todo dia. Também não entendia bem essa parte. Sempre tinha queijo minas e se não cortássemos do jeito “certo”, pronto, bronca na certa. Quando ele ficava furioso, ficava andando pra lá e para cá gritando alto para o nada. E só.

Quando eu era pequena, íamos a batizados e casamentos dos funcionários da nossa casa e de seus filhos. Não importava onde fosse, e que eu dormisse no carro até chegar e achasse longe.

Toda vez que eu reclamava de alguém ou de alguma situação, era bastante irritante argumentar com a mamãe, porque ela sempre parecia defender a outra pessoa ou desmerecer o que eu estava contando.

Meu pai tinha quatro filhos do primeiro casamento, que moravam e desmoravam lá em casa ao longo dos anos. Nessas idas e vindas, minha vida ficava bem confusa.

Quando eu tinha 15 anos, a minha melhor amiga de escola, que já tinha perdido a mãe, perdeu o pai também. Depois de morar com alguns parentes, num dia difícil para ela, perguntei aos meus pais se eles podiam trazê-la para morar conosco. Eles saíram a noite, a buscaram e a trouxeram lá para casa. Passaram anos, eu casei, mudei e minha amiga ainda seguiu morando com eles um tempo até se estruturar e cuidar de si. Sempre achei que foi porque eu pedi. Hoje sei que foi porque eu pedi, porem coube a eles, os adultos, a acolherem.

Assim, às vezes a tesoura era para 6, 8, 9 pessoas, e nos almoços de domingo, para loucura da minha avó, podíamos ser 4, 8 ou 9.

A vida é feita de recortes. Das nossas percepções de momento.
 

Na minha casa aprendi a sempre ouvir todos os lados da situação, A entender que nem tudo é pessoal e dirigido a Você. Que não ter tesoura era irritante mas irrelevante. Porque o que importava estava lá. Afeto, alegria, amor. Todos os dias. Quando eu cresci comprei várias tesouras. Uma para cada cômodo e enfim entendi que não importa ter tesouras e não ter empatia. O que importa é sua ação no dia a dia. Nos miramos em exemplos. Naqueles que nos precedem. Nas atitudes reais e não as criadas. Nos fatos e não nas versões. Na compreensão de que seremos sempre imperfeitos, porém nos cabe tentar sempre fazer nosso melhor.

Meu pai não era meu pai, era meu padrasto. Ele casou com a minha mãe quando eu tinha 3 anos, e nos adotamos mutuamente. Recebi dele muito mais do que os 4 filhos dele que como eu, não conseguiram conviver com o pai deles como gostariam. Ele foi incrível. Ele era incrível. Uma pessoa boníssima. Para mim.

Minha amiga, continua minha amiga. Nossas vidas seguiram rumos diferentes. Ainda assim, minha avó, que na época não entendia nada da maneira da nossa família funcionar, hoje a chama de neta. E ela, dentre todos os netos que minha avó tem, é a única que de 15 em 15 dias passa os domingos com minha avó jogando buraco. Sempre levando um docinho, claro. Porque para a vida ser doce, é preciso abrir o coração e não os olhos.

Que em todas as possibilidades de casa, seja sempre possível transformá-las verdadeiramente em um lar, reNOVAndo as energias e eliminando tudo aquilo que não importa. Porque a passagem por essa vida é breve.